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Como a Tesla não quebra apenas dando prejuízo?

Atualizado: 8 de nov. de 2022

Em julho de 2020 a Tesla se tornou a montadora com maior valor de mercado do mundo, mesmo produzindo muito menos carros que seus rivais como Toyota, GM e Ford.

Mas além de produzir menos carros, a Tesla também perde dinheiro ano após ano desde sua fundação em 2007. Em 2018 e 2019 por exemplo, a Tesla reportou prejuízos de quase 1B de dólares.


Bom, mas peraí, como pode uma empresa que nunca ganhou dinheiro continuar existindo?

Nesse post, vamos explicar como funciona o fluxo de caixa de uma empresa e esclarecer como uma companhia que tem prejuízo todos os anos não vai a falência e consegue continuar operando.



Definição de Falência


Embora a Tesla tenha prejuízos anuais, o segredo é que a Tesla nunca fica sem caixa.

Normalmente, uma empresa lucrativa aumenta o tamanho do seu caixa disponível. Já uma empresa deficitária, normalmente precisa retirar dinheiro do seu caixa para financiar as operações.


Mas na prática o que realmente determina se uma empresa quebra, não são os prejuízos. É a quantidade de dinheiro em caixa. E uma empresa pode, nunca, mas nunca mesmo, ficar sem dinheiro em caixa. No final das contas, como diz o ditado, “cash is king”.


Na verdade, se olharmos quanto dinheiro a Tesla tem em caixa, esse valor só tem aumentado nos últimos anos! A Tesla reportou uma disponibilidade de caixa de US$8,6B na metade de 2020, em plena pandemia de covid-19. Como uma empresa com prejuízos constantes consegue continuar aumentando a disponibilidade de dinheiro?


Fontes de Caixa


A resposta é: existem diferentes fontes de caixa em uma empresa:

  • Fluxo de caixa de atividades operacionais

  • Fluxo de caixa de atividades de investimentos

  • Fluxo de caixa de atividades de financiamento

Todas essas fontes são descritas no relatório que toda empresa negociada em bolsa de valores precisar publicar ao mercado a cada trimestre. O demonstrativo de fluxo de caixa é o relatório onde de fato é possível ver o nível de saúde de uma empresa. Ainda assim, é o relatório menos observado e entendido por investidores mais iniciantes. Cada uma dessas 3 fontes pode gerar ou retirar dinheiro do caixa da empresa, a depender da situação do negócio.


1. Fluxo de Caixa de Atividades Operacionais


Começando pela primeira e mais intuitiva de todas: as operações da empresa

Esse é o dinheiro produzido pelo próprio negócio da empresa, resultando do recebimento de pagamentos em troca do produto ou serviço vendido, menos todos os gastos associados ao negócio, como pagamento de salários, materiais, fornecedores, entre outros. Em um negócios maduro e lucrativo, essa costuma ser a principal fonte geradora de caixa. Em 2019, a Microsoft, por exemplo, gerou US$52B de caixa decorrente das atividades operacionais.

Já esse não foi o caso da Tesla por muito anos.


Até 2017, as atividades operacionais da Tesla ainda eram negativas. Embora a Tesla ganhasse dinheiro para cada carro vendido, ao incluir todas as demais despesas como pesquisa e desenvolvimento, despesas administrativas, manutenção das estações de carregamento, marketing, entre outros, o fluxo total de caixa das atividades operacionais se transformava em negativo. Ou seja, a Tesla gastava mais dinheiro do que recebia para operar o negócio.


Nos últimos 2 anos, Elon Musk conseguiu reverter um pouco a situação. Embora a Tesla ainda tenha prejuízos contábeis, o fluxo de caixa operacional já é positivo. Em 2019, a Tesla reportou um aumento de caixa da ordem de US$2B em função das suas atividades operacionais. O principal motivo para isso é que uma série de custos de depreciação e amortização já foram pagos no passado mas por regras contábeis precisam ser divididos ao longo de anos quando reportados no demonstrativo de resultados. Dessa forma, esses custos ainda impactam no resultado do lucro da empresa, causando prejuízo. Mas como o dinheiro já foi gasto no passado, ele não gera mais impacto no fluxo de caixa. Ainda faremos um novo post explicando melhor como funcionam os custos de depreciação e amortização.

Em resumo, apesar dos prejuízos, hoje o negócio da Tesla já gera mais dinheiro do retira do caixa da empresa.


2. Fluxo de Caixa de Atividades de Investimentos


Essas são movimentações de dinheiro relacionadas a compra e venda de ativos, como fábricas e escritórios, instrumentos de investimento, como ações, ou empréstimos de dinheiro. Essa foi e continua sendo a principal consumidora de capital da Tesla nos últimos ano por um motivo muito óbvio: Gigafactories. A Tesla tem construído algumas das maiores fábricas do mundo e, em função disso, tem gasto uma quantidade enorme de dinheiro nesse tipo de investimento. Foram mais de US$9B nos últimos 5 anos!


3. Fluxo de Caixa de Atividades de Financiamento


Essa é a fonte que verdadeiramente permitiu a Tesla nunca ficar sem dinheiro. As atividades de financiamento representam o dinheiro recebido através de empréstimos ou de investidores, além de pagamentos de dividendos, recompra de ações ou pagamentos de empréstimos.


Quando a empresa recebe investimentos ou empréstimos, essa é uma fonte geradora de caixa. Já quando a empresa precisa pagar pelos juros ou dividendos, essa fonte consome dinheiro do caixa da empresa.


O que de fato manteve a Tesla viva por muito tempo foram os empréstimos e venda de ações da própria Tesla para investidores, levantando capital. Em relação aos empréstimos, hoje a Tesla tem um total de US$14B ainda a ser pago, que representa 67% da receita. Pode parecer muito, mas quando comparada a outras empresas do setor, a Tesla está relativamente em linha com os competidores.


Além disso, a Tesla também levantou dinheiro através de emissão de ações que são então vendidas para investidores através da bolsa de valores. Um exemplo disso são os IPOs (oferta pública inicial de ações), momento que as empresas vendem suas ações pela primeira vez no mercado.


A Tesla fez seu IPO em 2010, levantando no processo US$226M. Mas mesmo após o IPO, a empresa emitiu novas ações, vendendo-as na bolsa de valores e diluindo os acionistas. Como o preço das ações da Tesla costumam ser bastante alto, a Tesla sempre consegue levantar quantias relevantes de dinheiro através desse mecanismo, de forma que os investidores sejam muito pouco diluídos. Praticamente dinheiro de graça já que esse dinheiro não precisa ser pago de volta e a empresa não paga dividendos.


Atratividade de um investimento


No entanto, manter uma empresa deficitária viva dessa forma não é tão simples. Basta que bancos ou investidores deixem de confiar na empresa e parem de investir ou de emprestar dinheiro para que a empresa possa rapidamente gastar todo o caixa restante e entrar em falência.


Para um banco que empresta dinheiro por exemplo, 2 fatores interessam: a probabilidade de a empresa pagar de volta o empréstimo recebido e as taxas de juros cobradas.


O que normalmente dita a atratividade disso são as empresas de classificação de risco, como a Standard & Poors e a Moodys. Empresas e outros instrumentos de investimentos são classificados de acordo com seu nível de risco, indo do mais baixo até o mais alto possível, normalmente aplicados a títulos do tesouro americano, um investimento teoricamente considerado livre de risco dado que basta o governo imprimir mais dinheiro para pagar a dívida. Quanto mais arriscada a empresa, maior a taxa de juros cobrada pelos bancos ou menor a quantidade de bancos dispostos a emprestar dinheiro.


Hoje o rating da Tesla é B+, ainda considerado um investimento especulativo, longe de empresas como Apple, Microsoft, Google ou até mesmo alguns competidores (Apple e Google AA+, Toyota A+, Ford BB+). Muito em função de ela ainda perder dinheiro.

Apesar disso, a Tesla consegue se financiar porque instituições e investidores acreditam que no futuro a empresa deixará de ser deficitária e irá passar a gerar lucros e fluxo de caixa positivos.


E a Tesla está quase chegando lá. Os prejuízos da companhia já vem diminuindo, com resultados positivos em alguns trimestres. Ainda, o fluxo de caixa de atividades operacionais foi positivo em 2018 e 2019, ou seja, o negócio em si gerou mais dinheiro do que consumiu, o que permite que a Tesla possa reduzir a quantidade de empréstimos ou de venda de ações para poder se manter capitalizada.


Com o tempo, a Tesla deve continuar reduzindo a necessidade de empréstimos e aumentar a geração de caixa a partir do próprio negócio, crescendo de maneira mais sustentável. São justamente essas expectativas que tem feito o preço das ações dispararem. Elon Musk finalmente tem conseguido provar que a Tesla conseguirá se tornar uma empresa saudável e lucrativa.


Assim como a Tesla, é justamente dessa forma que startups como o Nubank, Uber, Airbnb e outras se mantém nos seus primeiros anos de operação. Enquanto as atividades operacionais não são capazes de sustentar o negócios, essas empresas dependem fortemente de empréstimos e investidores para continuarem crescendo. Em função disso, um dos principais trabalhos de um CEO de uma startup é justamente ser um grande vendedor do sonho de um grande futuro da empresa. Quanto mais capaz o CEO for, mais facilmente ele consegue levantar dinheiro e a melhores condições, como melhores taxas de juros ou a um maior preço por ação, diluindo menos os acionistas.


Voltando às 3 fontes de caixa - uma empresa bem gerenciada precisa equilibrar essas 3 fontes. Uma empresa que consistentemente perde dinheiro operacionalmente e depende exclusivamente de atividades de financiamento para se sustentar, está fadada ao fracasso caso não consiga reverter os resultados do negócio. Já uma empresa que gera muito dinheiro através das suas operações mas não tem grandes ideias ou projetos para investir no seu crescimento, irá consumir caixa através do pagamento de dividendos. Isso também não é ótimo pois significa que a empresa não sabe o que fazer com o dinheiro que ganha e deve continuar estagnada.


Por fim, apesar de mais de uma década de prejuízos constantes, a incrível capacidade de Elon Musk de vender o grande sonho da Tesla a investidores e instituições financeiras fez com que a Tesla continuasse sempre capitalizada. O dinheiro arrecadado foi fundamental para operacionalizar a grande estratégia de produzir veículos elétricos em massa, que agora irão permitir que a Tesla consiga transformar suas vendas em lucro e principalmente em fluxo de caixa operacional positivo.


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